WHEY PROTEIN? HÃ?

"A única maneira de nos livrarmos da tentação é ceder-lhe." Oscar Wilde.

Ano novo, dieta nova. Os réveillons chegam, e a meta escrita na agenda que insisto em comprar e não usar está lá, na espreita: “Emagrecer”. Já perdi a conta de quantas vezes coloquei isso.

Os anos vão passando, e para o cidadão médio como eu, as horas em frente ao computador vão aumentando e as horas se aventurando subindo em pé-de-goiaba vão caindo drasticamente. A gente cresce, é normal a gente sair de casa e não ter uma mãe por perto com bom-senso para falar “Mas pizza DE NOVO queridinha?”.

Confesso que minha veia gastronômica (e a outra veia ansiosa também) já me trouxeram alguns quilinhos indesejáveis. Faz tempo que procuro a fórmula ideal para balancear felicidade versus saúde. Já li inúmeros livros cujos títulos tenho até vergonha de pronunciar e já fui em um sem fim de nutricionistas, dos mais famosos aos mais alternativos. E ainda não cheguei no Olimpo.

Depois de uma palestra do WGSN, uma das tendências para o futuro entrou em sintonia com algo que estava fervendo na minha mente: a “contra-dieta”. Se trata de um movimento que vai surgir com força entre os consumidores, que vão mandar os “frango-com-batata-doce” às favas e comer o que der na telha, sem culpa.

Minha insatisfação com dietas de uma maneira geral começou a crescer desde que voltei (adivinha da onde)... de Paris! Lá, a mulherada elegante nem pensa em falar de dieta. Comem seu pão, seu queijo, bebem seu vinho e estão lá, esbeltas, chiquérrimas e sedutoras. Você não vê ninguém contando as calorias ou falando em “Dia Off”, ou indo num rodízio japa e enchendo a cara de arroz depois de uma semana à base de suco verde.

Mas não se tratava de uma insatisfação mimada do tipo “Estou comendo couve, mas queria estar comendo Passatempo”. O meu problema era que eu não estava acreditando que eu iria passar o RESTO da minha vida tendo que me restringir cinco vezes por dia para manter um peso considerado saudável, entende? Eu ia ter que escolher o tempo todo entre a vaidade e o hedonismo e isso tava me deixando maluca.

Eu não tava pedindo pra comer uma pizza por dia, mas eu queria poder comer uma fatia de pão no café da manhã sem ter que pronunciar a palavra “Glúten”.

Um belo dia acordei e cheguei à seguinte conclusão: CANSEI! Uma hora é dieta da proteína, dieta sem glúten, sem lactose, sem proteína animal, agora come óleo de côco, agora come manteiga de amendoim, agora não pode mais comer óleo de côco, agora a moda é jejum, então agora não come nada!

Eu vivia eternamente entre a cruz e a espada. Ou era um isolamento social absoluto ou era um constante “taquei-o-foda-se” e comia o que queria. Não era um comportamento saudável, tava mais para comportamento compulsivo.

Deus me livre.

Eu, que amo cozinhar desde que me entendo por gente, iria viver de grelhadinho e salada? Cadê o prazer nisso gente? Toda vez que colava a dieta do nutricionista na geladeira, a família já sabia que eu iria encarnar o Giraya cada vez que estivesse com fome e tivesse que comer arroz integral. E o pior que cheguei à essa conclusão depois de uns 10 anos andando em círculos ao redor da balança.

O que eu queria era comer saudável, emagrecer, mas conseguir ser feliz no processo. Seria possível?

Algumas inspirações me ajudaram a chegar a esse consenso:

1)     Mulheres francesas não fazem dieta. Voltei da França e resgatei esse livro que estava perdido na minha prateleira. A autora foi presidente da Veuve Clicquot – fabricante de champanhes francesas – e conseguiu sobreviver a décadas de jantares e almoços com clientes mantendo o peso. Nele, ela conta diversos truques para manter o peso, mas eu concluí que a receita dela se mantém em três pilares: preservar sua herança gastronômica, se permitir pequenos prazeres e dosar a quantidade dos alimentos. Ela fala que 100 gramas de qualquer coisa já é bastante coisa. Criei um hábito de pesar o que punha no meu prato e descobri que comia muito mais arroz que podia e muito menos proteína do que deveria. Isso me ajudou a criar um autoconhecimento do que me satisfaz e do que é gula. Em relação à herança gastronômica, imagine só se a França inteira resolvesse abandonar seu croissant no café da manhã e resolvesse comer somente omelete de claras? O que seria da gastronomia mundial? Da cultura deles? E isso me leva ao próximo tópico;

2)     Rita Lobo e sua Cozinha Prática. Que a Rita é um sucesso, isso todo mundo sabe. Sou sua fã desde a edição ilustrada do “Cozinha de Estar” que afanei da minha tia há uns 15 anos. Mas tenho visto ela praticar um discurso que eu concordo muito. A gente gosta de pãozinho com manteiga, café com leite no café da manhã. Essa é a nossa cultura. Como podemos jogar nossa cultura pela janela e trocar por um suco detox? Não podemos fazer isso com as receitas da nossa avó. Há cinquenta anos não tínhamos tantos obesos e há uma razão para isso. Sou muito mais parar de comprar lasanha congelada do que deixar de comer quibebe de abóbora. Meu bolso, minha saúde e o caderno de receitas da minha avó agradecem.

3)     Receitas fitness. Outro dia estava com minha amiga no sofá e uma das modelos da moda estava fazendo confidências para o apresentador do programa em questão. Ela dizia que seu estilo de vida era super saudável, mas que ela era louca por um doce (cof, cof #cliche) e que por isso ela tinha desenvolvido uma receita deliciosa deeeeeee: bombom de Whey Protein com manteiga de amendoim!!! EEEEEEE.

Pausa para a decepção.

Eu e minha amiga tínhamos até nos ajeitado no sofá para escutar a receita e ela me vem com WHEY PROTEIN? Fala sério gente. Ela até falou que tinha que ser whey protein de cookies. Não desmerecendo as trocas saudáveis, mas isso já tá virando uma histeria coletiva. Se quiser comer, come um brigadeiro, mata a vontade e acabou. Essa de ficar represando nossas vontades é que faz a gente comer até o pé da mesa quando se rende.

 Meu ideal de almoço em casa. Foto nada produzida, mas ela é vida REAL!

Meu ideal de almoço em casa. Foto nada produzida, mas ela é vida REAL!

E o que eu estou fazendo hoje? Comendo arroz e feijão todo dia! Mudei meu estilo de vida para poder cozinhar mais, ir mais à feira e sair menos para comer. Ao me dar pequenos prazeres algumas vezes por dia, a ansiedade está controlada e finalmente fiz as pazes com a balança. Ao comer arroz e feijão, me sinto conectada com minha vida e minha sanidade e principalmente, ao evitar industrializados sinto que minha vida melhorou TANTO! Antes de comer, pense: “Isso vale as calorias? Estou comendo chocolate, mas é o melhor chocolate que posso comer no momento? É o melhor pudim? É o melhor pão?” Se não é, deixe pra depois e valorize o que é realmente BOM.

E um brinde à vida! Bisous,

 Eu e meu amado carrinho de feira.

Eu e meu amado carrinho de feira.