PARA DOBRAR A FELICIDADE, É PRECISO PARTILHÁ-LA

“Pour doubler le bonheur, il faut le partager!” 

Paul Bocuse.

Recentemente, algumas pessoas me perguntaram sobre o blog. Cadê os textos?

Bom, a verdade é que me sento para escrever todos os dias, mas tenho sofrido de um bloqueio criativo gastronômico. Não me faltam palavras, me faltam pratos criativos no dia-a-dia. Como, penso eu, como vou poder escrever sobre comida sendo que tenho cozinhado ou saído para comer cada vez menos? A palavra “embuste” não sai da minha cabeça.

Eu tenho padecido de uma preguiça de cozinhar. Logo eu, que amo cozinhar desde pequenininha.

Estou morando sozinha. Sempre fui muito intolerante com pessoas que justificam comer mal com o fato de morarem sozinhas. Para mim, não é desculpa encher o corpo de porcarias, ou comer de pé, só porque você não está compartilhando a refeição com ninguém. Mas mordi a língua: depois de meses por minha conta, ainda vou à feira e ao mercado, ainda planejo refeições, mas sofro com o excesso de comida. Porque das duas uma: ou você bagunça a cozinha para fazer apenas 50 gramas de macarrão ou você passa a semana inteira comendo sobras de refeições passadas, sejam congeladas ou não.

O fato de estar me alimentando “direitinho” também contribui. Falei em um texto anterior que finalmente fiz as pazes com minha alimentação, comendo coisas gostosas, mas priorizando a saúde. Isso quer dizer que meus dias são cheios de confort food, com arroz, feijão, salada, purê. Mas qualquer bocadinho de feijão cru rende feijão cozido para meses no meu freezer. Ver o meu congelador se encher me dá um faniquito. Não consigo fazer muita comida nova sendo que meu freezer está cheio. Isso está trazendo um pouco de monotonia para o meu dia-a-dia. Tenho sofrido um pouco com isso.

Fazer arroz e feijão é uma coisa meio coletiva: quanto mais gente, melhor. Não à toa que brasileiro adora reunir gente em volta da mesa. Fazer pouquinho é para os fracos, rs.

Também me dei conta que cozinhar, mesmo que seja para um almoço no meio de uma terça-feira, é um ato meio festivo. Existem tipos e tipos de cozinheiros. Tem aquele que quer acabar logo com isso, tem aquele que faz coisas gourmets para os amigos, mas não sabe distinguir salsinha de coentro, tem aquele que nunca leu um livro de receita mas manda muitíssimo bem no tempero, tem aquele que faz mágicas com uma despensa vazia e tem aquele que transfere amor para o outro em forma de comida. Esse último tipo sou eu.

Como boa introvertida que sou, tenho um pouco de dificuldade de expressar verbalmente o meu amor ou minha amizade. Mas se eu apareci na sua porta com um pão, saiba que esse é meu jeito de dizer que me importo com você.

E sozinha, como farei isso? Não me venha com esse papo de “saiba amar sua própria companhia”. Eu amo minha própria companhia, mas me dou por satisfeita passando um café de coador e fazendo uma sopinha. Não sou de grandes exigências. Minhas plantas estão bem alimentadas. Sobra até pro meu sobrinho cachorro, o Charlie. Em um mês como babá dele, um belo dia me vi procurando no Google “como cozinhar refeições balanceadas para cachorros”. Aí vi que a coisa tinha ido longe demais. Naquele mês, posso assegurar que ele passou muitíssimo bem. Atirar bolinhas? Não, obrigada. Coçar atrás da orelha? Não faço o tipo. Mas quem resiste a vê-lo lamber a tigelinha com tanto entusiasmo? Caso encerrado para mim.

 Suflê de goiabada com calda de catupiry. Taí uma receita que só faço para os outros!

Suflê de goiabada com calda de catupiry. Taí uma receita que só faço para os outros!

Não à toa minha casa recebeu tantas visitas esse ano. Também passei mais tempo no último ano viajando do que na minha própria casa, fazendo outras pessoas cozinharem para mim. Mas essa agrura está perto de um fim. Minha irmã está voltando para casa depois de um longo intercâmbio, e finalmente poderei voltar a reclamar de ter que atender às suas exigências, de ter que fazer panquecas no domingo de manhã ou fazer receita dobrada de molho à bolonhesa. Ah! E à família, amigos, crushs e afins, fica o convite para cafés, almoços e jantares. Só aparecer 😊

Texto dedicado à minha hermanita Giulia

VANCOUVER - Parte 1

"Cause nothin' lasts forever

And we both know hearts can change

And it's hard to hold a candle

In the cold November rain”

November Rain, Guns N'Roses.

Ano passado, (em 2017, ai meu Jesus) o meu bichinho da viagem tava atacado. Andei passeando por aí, e em uma das viagens fui pela segunda vez à Vancouver, para passear e principalmente visitar minha irmã caçula.

Passei uns 20 dias lá. Vancouver é uma cidade que transpira coisas descoladas e passear por lá é muito inspirador. Fui em novembro quando já estava ficando frio e escurecendo bem cedo.

Quando paro para pensar em Vancouver, o cenário é um misto de Nova York com Rio de Janeiro com São Paulo. Não sei explicar muito bem. É cosmopolita na medida certa, mas não é tão grande. Dá para se deslocar a pé e é bem turística e descolada.

Mas tem um negócio:

COMO CHOVE!

Foi lá que eu entendi o real sentido da música November Rain.

Pelo amor de Deus. Não estamos tão acostumados a fazer turismo em cidades chuvosas, então no começo eu ficava: “Vamos esperar a chuva passar pra sair”. Mas no final eu já tinha virado uma criatura anfíbia, e os pingos de chuva na roupa já faziam parte do look do dia.

Fazer turismo no frio é um negócio engraçado. Rola todo um check antes de sair:

Meias? Check.

Guarda-chuva? Check.

Casaco de boneco da Michelin impermeável? Check.

Cachecol e luvas extras? Check.

Gorro e protetor labial? Ai droga, esqueci, peraí que vou voltar.

Creminho para as mãos? Não, nossa, que desnecessário!

Daí no meio do passeio, depois de lavar a mão naquelas torneiras de água quente que deixam sua mão rachando, você não acha tão desnecessário assim rs.

Mas vamos ao que interessa: comida! Comi bastante enquanto estava em Vancity, e alguns lugares que queria dividir com vocês. Eu sou do tipo de turista que não me importo tanto com restaurantes estrelados, eu quero comer o que o local típico come. Minha irmã falou que se você está no Canadá, tem que comer Poutine, tomar café no Tim Hortons. Eu fiz muitas coisas dessa lista! Vejam abaixo:

JAPADOG

 Fachada sem frescuras do Japadog.

Fachada sem frescuras do Japadog.

Se você digitar no Google o que comer em Vancouver, muito provavelmente vai aparecer “Japadog”. O Japadog está para Vancouver assim como o Shake Shack está para Nova York.

É uma lanchonete sem muitas frescuras, bem pequena, com uma meia dúzia de mesas e cardápio na parede atrás do balcão.

O carro-chefe da casa é – adivinhem – o hot dog. Eu, chegada numa porcaria que sou, fiquei sonhando alguns dias até conseguirmos ir nesse lugar.

E posso dizer? Atendeu a todas as minhas expectativas. Tanto que uma vez não foi suficiente e tive que voltar lá para experimentar mais um pouco.

O primeiro combo que pedi foi o tradicional: com maionese japonesa e nori fatiado em cima. Mas não é só a cobertura que deixa o lanche diferente. O pão tem um quê de massa de esfiha e a salsicha é tipo uma linguiça Guanabara defumada. É muito bom. Não é um cachorro-quente qualquer.

 Esse fundo vermelho deixa tudo mais dramático, né?

Esse fundo vermelho deixa tudo mais dramático, né?

Pedi também uma shake fries. Tem vários sabores, mas pedi a temperada com manteiga e shoyu. O negócio é mortal! Mas muito bom.

Na segunda vez pedi com avocado. Sou doida por palta, desde que criei o hábito de comer com comida salgada no Chile. Recomendo também.

Deu vontade de comer de novo! :)

Eu fui no lugar onde foi o primeiro restaurante, e fica na rua mais legal de Vancouver: Robson Street.

JAPADOG: 530 Robson St, Vancouver BC

 Japadog de avocado. Uma combinação perfeita! Amo.

Japadog de avocado. Uma combinação perfeita! Amo.

STRAIGHT OUTTA BROOKLIN

Na mesma rua do Japadog, tem uma pizzaria ótima que minha irmã garimpou: Straight Outta Brooklyn.

 Não é Brooklyn não, é Vancouver!

Não é Brooklyn não, é Vancouver!

Tem um tipo de pizza que nós do Brasil estamos “descobrindo” agora, que é muito típica dos EUA e do Canadá: a feita em forno elétrico. Normalmente ela é fininha, não tão recheada, servida em fatias enormes que você come com a mão. Em SP, tô pra ir na Braz Elletrika que parece que serve pizza desse tipo.

A primeira vez que comi uma pizza dessas foi em Boston, num lugar que dizem que era o preferido do Mark Zuckemberg. Essa é uma comida típica de volta de balada, quando você não quer mais nada além de muita massa e algo bem porcaria para comer com as mãos.

 Dispensa apresentações!

Dispensa apresentações!

No entanto, a pizza do Straight Outta Brooklyn nada tem de porcaria. Ingredientes ótimos, proporção perfeita. Foi um belo de almoço feliz. (sim! Pizza no almoço :D)

STRAIGHT OUTTA BROOKLYN: 350 Robson St, Vancouver BC

POUTINE

A cara de um estrangeiro faz quando ouve falar de poutine é a mesma que um gringo faz quando ouve falar de farofa. E a reação do local é a mesma nas duas situações: “Espera só! Quando você experimentar...!”

É aquela coisa, difícil de explicar e você só vai entender comendo. Poutine é batata frita, coberta com o molho que eles usam para temperar o Peru de Ação de Graças, que se chama gravy. Para arrematar, eles colocam uns pedaços de um queijo que é um misto de queijo mussarela com queijo branco.

 Com vocês: Poutine!

Com vocês: Poutine!

Vira uma maçaroca com várias texturas, uma porcaria boa de comer – de preferência com cerveja! Tem vários lugares especializados em servir poutine, e eu comi esse da foto num que chama NYC Fries (vai entender), que tinha em vários shoppings. Óbvio que já existem várias versões, com bacon, com queijo, com porco desfiado, mas esse da foto é a versão tradicional.

No Canadá, faça como os canadenses!

Em breve, posto uma parte 2 com outros lugares que curti quando estava em BC.

Beijos!

WHEY PROTEIN? HÃ?

"A única maneira de nos livrarmos da tentação é ceder-lhe." Oscar Wilde.

Ano novo, dieta nova. Os réveillons chegam, e a meta escrita na agenda que insisto em comprar e não usar está lá, na espreita: “Emagrecer”. Já perdi a conta de quantas vezes coloquei isso.

Os anos vão passando, e para o cidadão médio como eu, as horas em frente ao computador vão aumentando e as horas se aventurando subindo em pé-de-goiaba vão caindo drasticamente. A gente cresce, é normal a gente sair de casa e não ter uma mãe por perto com bom-senso para falar “Mas pizza DE NOVO queridinha?”.

Confesso que minha veia gastronômica (e a outra veia ansiosa também) já me trouxeram alguns quilinhos indesejáveis. Faz tempo que procuro a fórmula ideal para balancear felicidade versus saúde. Já li inúmeros livros cujos títulos tenho até vergonha de pronunciar e já fui em um sem fim de nutricionistas, dos mais famosos aos mais alternativos. E ainda não cheguei no Olimpo.

Depois de uma palestra do WGSN, uma das tendências para o futuro entrou em sintonia com algo que estava fervendo na minha mente: a “contra-dieta”. Se trata de um movimento que vai surgir com força entre os consumidores, que vão mandar os “frango-com-batata-doce” às favas e comer o que der na telha, sem culpa.

Minha insatisfação com dietas de uma maneira geral começou a crescer desde que voltei (adivinha da onde)... de Paris! Lá, a mulherada elegante nem pensa em falar de dieta. Comem seu pão, seu queijo, bebem seu vinho e estão lá, esbeltas, chiquérrimas e sedutoras. Você não vê ninguém contando as calorias ou falando em “Dia Off”, ou indo num rodízio japa e enchendo a cara de arroz depois de uma semana à base de suco verde.

Mas não se tratava de uma insatisfação mimada do tipo “Estou comendo couve, mas queria estar comendo Passatempo”. O meu problema era que eu não estava acreditando que eu iria passar o RESTO da minha vida tendo que me restringir cinco vezes por dia para manter um peso considerado saudável, entende? Eu ia ter que escolher o tempo todo entre a vaidade e o hedonismo e isso tava me deixando maluca.

Eu não tava pedindo pra comer uma pizza por dia, mas eu queria poder comer uma fatia de pão no café da manhã sem ter que pronunciar a palavra “Glúten”.

Um belo dia acordei e cheguei à seguinte conclusão: CANSEI! Uma hora é dieta da proteína, dieta sem glúten, sem lactose, sem proteína animal, agora come óleo de côco, agora come manteiga de amendoim, agora não pode mais comer óleo de côco, agora a moda é jejum, então agora não come nada!

Eu vivia eternamente entre a cruz e a espada. Ou era um isolamento social absoluto ou era um constante “taquei-o-foda-se” e comia o que queria. Não era um comportamento saudável, tava mais para comportamento compulsivo.

Deus me livre.

Eu, que amo cozinhar desde que me entendo por gente, iria viver de grelhadinho e salada? Cadê o prazer nisso gente? Toda vez que colava a dieta do nutricionista na geladeira, a família já sabia que eu iria encarnar o Giraya cada vez que estivesse com fome e tivesse que comer arroz integral. E o pior que cheguei à essa conclusão depois de uns 10 anos andando em círculos ao redor da balança.

O que eu queria era comer saudável, emagrecer, mas conseguir ser feliz no processo. Seria possível?

Algumas inspirações me ajudaram a chegar a esse consenso:

1)     Mulheres francesas não fazem dieta. Voltei da França e resgatei esse livro que estava perdido na minha prateleira. A autora foi presidente da Veuve Clicquot – fabricante de champanhes francesas – e conseguiu sobreviver a décadas de jantares e almoços com clientes mantendo o peso. Nele, ela conta diversos truques para manter o peso, mas eu concluí que a receita dela se mantém em três pilares: preservar sua herança gastronômica, se permitir pequenos prazeres e dosar a quantidade dos alimentos. Ela fala que 100 gramas de qualquer coisa já é bastante coisa. Criei um hábito de pesar o que punha no meu prato e descobri que comia muito mais arroz que podia e muito menos proteína do que deveria. Isso me ajudou a criar um autoconhecimento do que me satisfaz e do que é gula. Em relação à herança gastronômica, imagine só se a França inteira resolvesse abandonar seu croissant no café da manhã e resolvesse comer somente omelete de claras? O que seria da gastronomia mundial? Da cultura deles? E isso me leva ao próximo tópico;

2)     Rita Lobo e sua Cozinha Prática. Que a Rita é um sucesso, isso todo mundo sabe. Sou sua fã desde a edição ilustrada do “Cozinha de Estar” que afanei da minha tia há uns 15 anos. Mas tenho visto ela praticar um discurso que eu concordo muito. A gente gosta de pãozinho com manteiga, café com leite no café da manhã. Essa é a nossa cultura. Como podemos jogar nossa cultura pela janela e trocar por um suco detox? Não podemos fazer isso com as receitas da nossa avó. Há cinquenta anos não tínhamos tantos obesos e há uma razão para isso. Sou muito mais parar de comprar lasanha congelada do que deixar de comer quibebe de abóbora. Meu bolso, minha saúde e o caderno de receitas da minha avó agradecem.

3)     Receitas fitness. Outro dia estava com minha amiga no sofá e uma das modelos da moda estava fazendo confidências para o apresentador do programa em questão. Ela dizia que seu estilo de vida era super saudável, mas que ela era louca por um doce (cof, cof #cliche) e que por isso ela tinha desenvolvido uma receita deliciosa deeeeeee: bombom de Whey Protein com manteiga de amendoim!!! EEEEEEE.

Pausa para a decepção.

Eu e minha amiga tínhamos até nos ajeitado no sofá para escutar a receita e ela me vem com WHEY PROTEIN? Fala sério gente. Ela até falou que tinha que ser whey protein de cookies. Não desmerecendo as trocas saudáveis, mas isso já tá virando uma histeria coletiva. Se quiser comer, come um brigadeiro, mata a vontade e acabou. Essa de ficar represando nossas vontades é que faz a gente comer até o pé da mesa quando se rende.

 Meu ideal de almoço em casa. Foto nada produzida, mas ela é vida REAL!

Meu ideal de almoço em casa. Foto nada produzida, mas ela é vida REAL!

E o que eu estou fazendo hoje? Comendo arroz e feijão todo dia! Mudei meu estilo de vida para poder cozinhar mais, ir mais à feira e sair menos para comer. Ao me dar pequenos prazeres algumas vezes por dia, a ansiedade está controlada e finalmente fiz as pazes com a balança. Ao comer arroz e feijão, me sinto conectada com minha vida e minha sanidade e principalmente, ao evitar industrializados sinto que minha vida melhorou TANTO! Antes de comer, pense: “Isso vale as calorias? Estou comendo chocolate, mas é o melhor chocolate que posso comer no momento? É o melhor pudim? É o melhor pão?” Se não é, deixe pra depois e valorize o que é realmente BOM.

E um brinde à vida! Bisous,

 Eu e meu amado carrinho de feira.

Eu e meu amado carrinho de feira.

Viajar sozinha

"Chuva e sol
Poeira e carvão
Longe de casa
Sigo o roteiro
Mais uma estação
E a alegria no coração"

Luiz Gonzaga, A Vida do Viajante.

Acabo de voltar de uma viagem de um mês por aí afora. Visitei Londres, Vancouver e Orlando. Apesar de ter me juntado a pessoas nas cidades que visitei, a primeira parte da viagem foi completamente sozinha e algumas das outras também.

Quando digo que vou sozinha, a surpresa é geral:

“Sozinha?”

“Vai com quem? SOZINHA?”

“Mas sozinha?”

“Que coragem! Sozinha?”

“É louca? Sem ninguém?”

Sim, sozinha! Respondo. Tá tudo bem, gente. Não, não tenho depressão. Não é que ninguém quis ir comigo. Apenas estou com a agenda livre, comprei a passagem e fui. Até chamo algumas pessoas para ir comigo, mas se não dá, o plano continua de pé.

Viajar sozinha é uma delícia, gente. Para a mulherada que é mãe, esposa, filha, trabalhadora então, é uma benção divina. Me digam mães, qual foi a última vez que comeram o que queriam (ou não comeram), a hora que queriam, do jeito que queriam?

Quando você está sozinha, você se reconecta consigo mesma. Relembra do que gosta, do que te inspira, resolve questões que estão lá há bastante tempo fermentando no fundo da consciência.

Pro bem e pro mal, viajar sozinha pode trazer epifanias, resoluções, e de bônus, trazer descobertas de lugares interessantes. Trazer paixões em forma de cidades.

E olha que sou uma viajante novata. Nem viajei tanto ainda e já descobri tudo isso.

A primeira vez eu viajei sozinha foi de ônibus, da minha cidade do interior para São Paulo. Eu lembro até hoje dessa viagem. Eu estava há muito tempo entediada. Queria ir para a Bienal do Livro em São Paulo, mas ninguém da minha sala da escola queria ir comigo. A visita só seria viável se eu fosse com a escola, pois ir com meus pais deixaria a logística impossível.

Não deu.

Fiquei possessa. Fiquei tão indignada que meus pais tentaram arranjar uma visita a São Paulo, porque notaram que eu estava muito entediada mesmo e merecia sair daquela cidadezinha por um fim de semana que fosse. Ligaram para os meus avós, que moravam perto de São Paulo:

“Aceitam sua neta por um fim de semana? Sim? Ótimo. Estamos colocando ela no ônibus e vocês pegam ela no meio da Castelo Branco.”

E foi assim. A estadia em si foi totalmente assistida pelos meus avós. Mas foi a primeira vez que fiz uma viagem maior sozinha. Eu só tinha que descer no lugar certo da estrada, e mesmo assim, aquela foi uma experiência divisora de águas. E quando a gente é mais novo, a gente fica fissurado com cada coisa né? O ônibus em questão parava no Rodoserv (quem pega a rodovia Castelo Branco sabe de que posto estou falando). E na época, o Rodoserv servia salgados, pastéis fritos na hora e sanduíches lindos super recheados feitos em baguette. E como todo posto de estrada, era caro. Meu sonho era comer um sanduíche daqueles, mas eu não queria gastar minha mesada numa refeição super faturada. E depois dessa viagem e por algum tempo, sinônimo de sucesso na profissão seria quando eu pudesse comprar quantos sanduíches de baguette do Rodoserv que quisesse, hahahaha.

Bom, hoje posso dizer que devo ter comprado alguns daqueles sanduíches, embora o Rodoserv não seja mais o mesmo posto e eles não sirvam mais esses sanduíches por lá.

Memórias à parte, toda pessoa que se surpreende com o fato de eu estar viajando sozinha, eu encorajo para que ela faça o mesmo.

Viajar sozinho pode ser assustador por diversos motivos: talvez você nunca tenha pego um voo internacional sem ninguém, talvez você não saiba falar a língua do país de destino ou simplesmente você não tem o costume de fazer coisas sozinho.

Hoje posso dizer com alívio que o mundo está se tornando um lugar preparado para receber viajantes solo. Mas tenho algumas dicas que me ajudaram a driblar o nervosismo:

1)     Investir em um chip de internet quando chega no local: essa dica eu considero ainda mais importante do que planejar a viagem antes de chegar ao destino. Internet dá segurança e ter uma linha local faz com que você se sinta seguro. Se der algo errado, você liga para alguém. Pelo celular você encontra caminhos, vê avaliações de lugares, fala com familiares, sobe vídeos no Instagram, chama táxi, pede dicas a conhecidos e estranhos. Não tem coisa que mais me dê segurança do que saber que se eu me machucar, posso chamar o seguro saúde na hora. Tem quem diga que é caro, ou que é excesso de cuidado. Mas não posso nem dizer o número de vezes que me senti extremamente aliviada por ter pacotes de dados no meu celular, e não é só pelo fato de poder me conectar às redes sociais. Normalmente esse chips são vendidos no aeroporto logo depois do desembarque.

2)     Se hospedar em um bairro familiar e seguro. Hostel, AirBnb ou hotel, você escolhe como gosta de ficar. Mas, como viajante, prefiro ficar em um lugar seguro e economizar nos almoços do que ao contrário. Pode parecer uma dica óbvia, mas vejo mais gente se atentando ao fato do hotel ser luxuoso do que se os arredores são seguros. Eu sempre escolho um bairro mais familiar do que boêmio, e sempre perto de um metrô ou transporte público. Isso dá independência e auto-confiança para andar sozinha. É só fazer uma pesquisa no Google antes de reservar sua acomodação.

3)     Dar preferência a um certo tipo de cidade. Como eu disse acima, ainda estou no começo das minhas andanças alone. Por isso, me adaptei muito bem a um certo estilo de cidade: plana para eu andar bastante sem me cansar, com metrô acessível e com muitas opções culturais tipo museu, e muitos parques. Por exemplo: Nova York para mim é a melhor cidade para visitar sozinha. Já Orlando, eu não recomendo. Eu adoro visitar Orlando, mas lá é o tipo de cidade que você só se desloca se for de carro, tem parques de diversão, as refeições são em super size. Eu adoro contemplar um quadro sozinha, mas ir em um parque de diversões e não ter ninguém para compartilhar as risadas é uma tarefa hardcore para iniciantes. Até o mais descolado dos viajantes solo pode ficar meio deprê ao viajar sozinho para uma cidade tão familiar. Fuja.

4)     Google Maps será seu melhor amigo antes e durante a viagem: antes de reservar o hotel, de uma olhadinha na versão 3D do Google Maps para ver se a rua é bonita, e se hotel tem a mesma fachada do que a foto de divulgação. Eu já desisti de ficar em diversos hotéis porque no Google ele tira uma cara bem creepy e porque a rua era muito deserta. Excesso de segurança nunca fez mal a ninguém.

5)     Faça um roteiro, mas não muito rígido: a vantagem de você viajar sozinha é poder fazer o que te der na telha. O que eu faço são: dentre os meus interesses, pesquiso com antecedência o que eu quero fazer. Por exemplo, se eu quero assistir uma ópera, vejo se é temporada ou não, e se for o caso, já compro ingressos com antecedência. Ou se quero fazer uma viagem de trem, às vezes esse trem só parte às segundas-feiras. Esse tipo de coisa. Também costumo planejar meus dias de acordo com bairros. Se estou em Nova York, posso fazer segunda-feira Midtown. Terça-feira, Brooklyn e por aí vai.

E você, já se aventurou sozinho por aí? Quais são os lugares que você mais gosta de ver sozinho?

Beijos,

 A única desvantagem de viajar sozinha, é que se você odeia selfie como eu, suas fotos vão ser sempre assim! Sem você, rs. London Eye, na minha viagem mês passado para Londres. Foto: Mandolina Blog.

A única desvantagem de viajar sozinha, é que se você odeia selfie como eu, suas fotos vão ser sempre assim! Sem você, rs. London Eye, na minha viagem mês passado para Londres. Foto: Mandolina Blog.

La Poule Au Pot

Na França, faça como os franceses. Era isso que pensava quando fui visitar o país. Depois de muitos anos sendo fã da culinária francesa, queria experimentar o que havia de mais típico: terrine de campagna, moules et frites, (que na realidade é belga, mas eu acho super francês 😊) boeuf bourguignon, tarte tatin, creme bruléé. Os famigerados clássicos.

Qual não foi minha decepção quando, ao ler inúmeros menus dos cafés por onde andava, via algumas opções que passavam longe dos clássicos, e ainda mais longe da cozinha local. Tudo bem que agora entendo um pouco a perspectiva deles, afinal de contas, tudo tem que evoluir, correto? Mas não pude deixar de ficar um pouco frustrada ao ver um cardápio padrão em muitos cafés: todos incluíam salmão defumado, avocado, sushi e hambúrguer, entre o indefectível steak tartar e sopa de cebola gratinada.

Bom, era uma sexta-feira e eu havia acabado de visitar tanto o Museu D’Orsay quanto o Museu do Louvre. Havia dado check em dois dos meus maiores sonhos turísticos e eu queria uma celebração de acordo. Por conta do café da manhã reforçado, não havíamos almoçado e eu não queria de jeito nenhum gastar minhas calorias francesas com algo que não valesse a pena.

Então, veio o Trip Advisor para ajudar. Quando estou sem roteiro gastronômico, utilizo muito o aplicativo para ver quais são as melhores opções num raio acessível. Depois de muito fuçar, algo no La Poule ao Pot deu “match” com minha fome 😊.

O restaurante funciona das 19:00 até as 5 da manhã. Tivemos que dar uma enrolada e esperar o restaurante abrir (turistas, rs). Estava com uma fome que me deixou muito mal-humorada, mas o serviço era extremamente simpático e a comida, melhor ainda.

Sentamos com frio e molhadas de chuva e pedimos uma entrada de cogumelos girolles refogados no alho e óleo. Estava simplesmente divino. A França tem uma capacidade de consumir e identificar os melhores cogumelos, e a textura e o sabor desses ainda estão frescos na minha memória.

 Cogumelos girolles. Foto: Mandolina Blog.

Cogumelos girolles. Foto: Mandolina Blog.

Pedimos meia garrafa de tinto para acompanhar. Eu, ao verificar o aplicativo, já vim “brifada” do prato que queria pedir: uma versão do “La Poule ao Pot”. A aparência não favorece muito, pois se trata de meio frango fervido, o que dá uma cara meio desbotada para o pobre galeto. Mas eu sou uma pessoa que não se deixa enganar pelas aparências, e foi um dos pratos mais saborosos da viagem inteira. Minha mãe pediu um prato do menu do dia: peito de pato com uvas e uma espécie de alho-poró. Estava divino.

 Minha pedida do La Poule au Pot. Foto: Mandolina Blog.

Minha pedida do La Poule au Pot. Foto: Mandolina Blog.

 Peito de pato com uvas e alho-poró. Foto: Mandolina Blog.

Peito de pato com uvas e alho-poró. Foto: Mandolina Blog.

Como não estávamos para brincadeira, eu pedi uma tarte tatin flambada com calvados e minha mãe pediu o que deve ser o melhor creme brullée que eu já provei na vida. A emoção foi tanta que não tiramos fotos.

 Esse é um screen shot do insta stories do mandolina. Segue lá: @mandolinablog

Esse é um screen shot do insta stories do mandolina. Segue lá: @mandolinablog

Junto com o café, ganhamos um licor de cerejas com as cerejas juntos. A conta veio alta, mas a experiência foi tão boa e o serviço tão amistoso que o restaurante ganhou prêmio por melhor conjunto da obra de toda a viagem (ganhou até do Alain Ducasse). Ele pode não ser o restaurante mais estrelado de Paris, mas correspondeu a tudo que eu esperava de um café francês e mais um pouco.

Super recomendo!

LA POULE AU POT: 9 Rue Vauvilliers, 75001 Paris, França.